kabidela
NÃO ME LEIAS PELA CAPA Querem domar uma domadora, desconhecem a história, Confundem rédeas com poder, controlo com vitória. Tentam traçar-me o caminho, determinar a minha rota, Mas nunca fui de seguir só porque alguém me aponta. Não me leias pela capa, eu não sou livro aberto, Tenho páginas guardadas, nem tudo mostro de perto. Não vim pedir licença, nem autorização, Se a minha voz bate à porta, trago a chave na mão. Não confundas o silêncio com falta de argumento, Penso antes de falar, não disparo contra o vento. Tenho a calma de quem sabe, a faísca de quem cria, Um arsenal de palavras transformado em poesia. Não sou feita à tua medida, não me tentes ajustar, Não nasci para caber, tenho espaço para ocupar. Não preciso de aprovação para saber quem quero ser, Quem depende de aplausos nunca aprende a escolher. A capa é só fachada, o conteúdo é que pesa, Tenho o lápis como lâmina, mas a mente como escudo. Se pensavas que sabias, afinal não viste tudo. Não vim pedir licença, vim deixar a minha marca, Não preciso da tua luz para acender a minha chama. Enquanto esperam que eu recue, já tracei a minha linha, Não me dês um lugar à mesa, construo a minha. Tenho defeitos, não disfarço, também sei que já mudei, Cada erro deu-me escrita, cada queda ensinou-me o que sei. Não me peças para ser menos só para te agradar, Não vou baixar a minha voz para te deixar falar. Não me moldas com palavras, nem me travas com pressão, Trago tempestades calmas a morar na minha mão. Não confundas ser discreta com não ter capacidade, Eu não preciso de gritar para impor a minha verdade. Lê as entrelinhas, não te prendas à aparência, Tenho estradas na memória e aprendi com a experiência. Se não entendes a mensagem, não lhe alteres o sentido, Eu não escrevo para agradar, escrevo porque existo. A capa pode enganar, mas o verso não disfarça, Não vim pedir licença — vim deixar a minha marca.
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