Disseram-me que tenho dois minutos
Disseram-me que tenho dois minutos, então não vou desperdiçar nenhum. Pus o relógio contra o peito, cada segundo vale por um. Não me dês espaço — eu faço espaço, não me dês palco — eu faço o chão. Se cada barra é uma bala, eu não falho a munição. Tenho dois minutos pra dizer o que calei durante anos, duas voltas neste beat pra transformar danos em planos. E eu não vim contar a história, vim deixar-te dentro dela. Se piscaste, perdeste uma linha, se ouviste, abre a janela. Porque eu penso demasiado pra caber num pensamento, então meto tudo em rimas e acelero o movimento. Sem pausa, sem legenda, sem tradução, cada frase vem com dupla intenção, tenho vírgulas na língua, pontos na pressão, faço do segundo uma unidade de combustão. Não conto os minutos — conto o impacto, não conto os passos — conto o contacto, se querem uma versão, entrego o compacto, mas dentro de cada verso há um universo intacto. Tenho coisas por dizer, mas não preciso dizer tudo, às vezes uma palavra faz mais barulho que um discurso. E se o beat me der dois minutos, eu devolvo dois minutos de verdade. Não preciso de eternidade se conseguir deixar presença depois da última frase. Disseram-me que tenho dois minutos. Já passou um. Ainda tenho metade e já disse mais do que esperavam de mim. Por isso aumenta o volume. Eu não vim preencher tempo. Vim fazer tempo lembrar-se de mim.
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