marioneta

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marioneta

Tocam uma tecla… eu dou um passo. Puxam uma corda… eu mudo de direção. E dizem que sou livre. Nasci com fios presos sem sequer perguntar, mãos que nunca vi decidiram onde andar, um piano dita o tempo, eu obedeço ao compasso, se aceleram a melodia, aceleram o meu passo. Violinos cortam o ar como linhas invisíveis, há cordas tão apertadas que parecem impossíveis de romper, de enxergar, de sequer perceber, porque quando nascemos já nos ensinam a obedecer. “Faz isto, pensa assim, segue aquela direção”, põem regras na cabeça e chamam-lhe educação, põem medo nos bolsos, expectativas no olhar, e depois perguntam: “Então, sabes quem queres ser?” Somos bonecos de carne num teatro gigante, cada um representa o papel que lhe deram antes, uns puxam pelos fios, outros fingem não puxar, e há quem controle a música sem sequer aparecer no palco. Sou marioneta ao som de um piano, cordas nas mãos de um mundo que eu nem sempre conheço, o violino chora, eu continuo dançando, mesmo sem saber quem está a puxar os meus passos. Mas se encontro os fios, posso começar a cortar, se descubro as mãos, posso escolher onde andar, talvez liberdade não seja viver sem prisão, talvez seja aprender quem segura a corda na mão. Há fios que são pessoas, há fios que são memórias, há fios que são feridas disfarçadas de histórias, há fios que são medo, há fios que são pressão, e alguns foram colocados dentro do nosso coração. O pior dos fios é aquele que já não vemos, porque depois de tanto tempo pensamos que somos eles, confundimos a corda com a própria identidade, e chamamos de destino aquilo que era vontade. Se o piano parar, ainda existe silêncio. Se o violino calar, ainda existe pensamento. E se cortarem a música que mandava em mim, talvez pela primeira vez eu descubra o meu próprio ritmo. E se fui feita para dançar, quem disse que não posso escolher a música? E se me deram as cordas, quem disse que não posso puxá-las de volta? Talvez sejamos todos marionetas… até ao dia em que olhamos para cima, vemos os fios, vemos as mãos e percebemos: nem toda a música tem de ser tocada por outra pessoa.

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9 days ago

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