unic brain

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Eu não vejo só o que está à minha frente, há qualquer coisa por baixo da superfície. Um gesto, um silêncio, a maneira como respiras, e a minha mente já procura o que não disseste. Não sei se é dom, treino ou consequência, se é sensibilidade ou excesso de atenção, mas há sinais que chegam antes das palavras e eu aprendi a escutá-los sem pedir permissão. A minha mente é laboratório, eu sou cobaia, cada experiência deixa uma nova camada, não testo o mundo, testo aquilo que sinto, vou até ao limite de onde chega o meu instinto. Tenho emoção, memória, razão, mil fios cruzados dentro da mesma estação, uma parte pergunta, outra quer responder, outra observa tudo sem ninguém perceber. Eu leio o ambiente antes de alguém falar, sinto quando há qualquer coisa fora do lugar, não é magia, é atenção multiplicada, é reparar naquilo que passa despercebido à manada. Há pessoas que sorriem mas carregam tempestades, há abraços que escondem distâncias e verdades, e eu não preciso que me digam "não estou bem", às vezes o silêncio grita mais alto que alguém. Sou recetora de sinais que ninguém enviou, mensageira de uma coisa que ninguém explicou, capto frequências emocionais no ar, e depois tento traduzir aquilo que não sei nomear. Talvez seja empatia, talvez percepção, talvez o cérebro a construir previsão, junta memória, contexto, expressão, e transforma mil pequenos dados numa impressão. Vejo além, mas não digo que vejo tudo, há mistério onde o conhecimento fica mudo, eu não sou dona da verdade que procuro, sou só alguém a explorar o próprio mundo. Eu vejo além do olhar, sinto antes de chegar, leio o que fica no ar quando ninguém quer falar. A minha mente é laboratório, cada erro é território, cada queda deixa marcas, cada marca é repertório. Eu não sei onde termina a intuição e começa a razão, mas se o mundo manda sinais, eu escuto a transmissão. Não procuro controlar o que ainda não conheço, procuro conhecer aquilo que dentro de mim eu reconheço. Genialidade? Eu prefiro chamar lucidez, porque o brilho não está em saber tudo de uma vez, está em fazer perguntas que ninguém quer fazer e aceitar que há respostas que ainda não sei entender. Eu estudo a minha mente como quem abre uma porta, vejo o que me expande, vejo o que me transporta, não quero ser maior, quero ir mais fundo, perceber como construo a minha versão deste mundo. Tenho emoção, memória, atenção, linguagem, decisão, associação, aprendizagem, não existe um botão secreto escondido no cérebro, existe um sistema inteiro a trabalhar em silêncio. E quanto mais observo, mais vejo complexidade, não é uma percentagem fixa chamada capacidade, é contexto, experiência, descanso e atenção, é o cérebro inteiro em constante adaptação. E às vezes vem hiperatividade por excesso de informação, mil pensamentos a correr na mesma direção, a conversa ainda vai a meio, eu já formulei a questão, não é falta de respeito — é velocidade de associação. A pessoa ainda fala, eu já liguei os pontos, a resposta apareceu antes dos últimos sons, às vezes interrompo — eu sei, pode parecer invasão, mas o meu cérebro já fechou aquela equação. Não é "eu sei mais", nem quero ter razão, é só informação a chegar em aceleração, uma ideia chama outra, outra chama uma terceira, e quando dou por mim já estou noutra fronteira. Por isso, se eu cortar a frase, não leves a mal, eu não estou a diminuir o que dizes, afinal, é que em frações de segundos já surgiu a ligação, e a minha boca às vezes corre atrás da compreensão. Estou a aprender a esperar, a deixar terminar, a dar espaço à tua ideia antes de responder ou falar, porque compreender o outro também é saber ouvir, mesmo quando a minha mente já quer fugir. Às vezes acerto e parece premonição, mas talvez tenha sido leitura inconsciente da situação, um detalhe pequenino que ficou registado, e apareceu na consciência quando tudo já estava alinhado. Mas também erro — e essa parte eu não escondo, porque ser sensível não me transforma em oráculo, posso sentir uma coisa e ela não ser verdade, posso confundir percepção com ansiedade. Por isso questiono aquilo que sinto, não entrego a minha mente ao primeiro instinto, a verdadeira força não é nunca duvidar, é ter coragem de sentir e depois verificar. Há quem me diga: "Tu percebes coisas demais", eu respondo: "Talvez eu repare em coisas normais." Só que enquanto uns passam, eu fico a observar, a forma como alguém olha antes de disfarçar. A voz muda um pouco, o ritmo também, uma pausa inesperada pode dizer mais que cem, o corpo responde antes da boca decidir, e eu junto as peças sem sequer pedir. E se às vezes falo por cima, não é para dominar, é excesso de caminhos a querer comunicar, a minha cabeça abre portas em simultâneo, e cada pensamento parece urgente e necessário. Não quero invadir ninguém, quero compreender, porque sentir o outro não me dá o direito de o definir, há uma diferença enorme entre perceber um sinal e acreditar que conheço toda a verdade afinal. Eu sou transmissora quando encontro uma palavra para aquilo que outra pessoa ainda não encontrava, sou recetora quando deixo o mundo entrar, sou mensageira quando transformo o sentir em cantar. E talvez seja essa a minha experiência, pegar no caos e procurar coerência, fazer da dúvida matéria-prima da criação, transformar observação em arte, arte em reflexão. Não procuro controlar o que ainda não conheço, procuro conhecer aquilo que dentro de mim eu reconheço, cada limite que encontro vira outra pergunta, cada resposta incompleta deixa a investigação conjunta. Porque a mente não é uma caixa fechada, é uma cidade inteira, constantemente iluminada, há ruas que conheço, outras que ainda não vi, e quanto mais exploro, mais descubro de mim. E se eu sentir que alguém está a cair, não significa que eu saiba onde vai parar. Posso oferecer presença, posso perguntar, posso simplesmente estar e ouvir. E se eu pressentir uma mudança no caminho, não significa que o futuro esteja escrito. Talvez seja só o cérebro a reconhecer um padrão antes de eu o conseguir explicar. Talvez seja isso que chamamos intuição, um cruzamento entre experiência e percepção, um mapa invisível construído dentro da mente, que às vezes chega primeiro do que a própria gente. Sinal, estímulo, memória, reação, emoção, contexto, interpretação, atenção, previsão, associação, mil processos numa só percepção. Eu observo, absorvo, devolvo, reformulo, mergulho no pensamento e depois reconstruo, não sou vidente, sou investigadora, da minha própria mente, minha própria exploradora. Cobaia e cientista no mesmo corpo, cada experiência deixa um mapa novo, não procuro uma fórmula para explicar tudo, procuro perguntas que me façam ver mais fundo. E se o limite estiver onde eu pensei que acabava, talvez exista outra porta que eu ainda não encontrava, não preciso provar que consigo ultrapassar, só preciso continuar a explorar. Não sou dona dos sinais, sou intérprete, não sou dona do futuro, sou observadora. Não sei tudo o que existe por baixo da superfície, mas sei que ainda há muito para descobrir lá fora. Quanto mais informação entra, mais caminhos se abrem, mais perguntas nascem, mais pensamentos se movem, e talvez a verdadeira descoberta não seja chegar ao fim, mas perceber quantos mundos ainda existem dentro de mim.

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