raíz
Há gente que entra numa sala e parece que baixaram o volume do mundo, não é silêncio, é falta de conteúdo, sem sal, sem pimenta, sem gosto. Cara neutra, frase neutra, opinião reciclada, personalidade em promoção, validade limitada, falam aquilo que convém, nunca aquilo que pensam, pedem licença até quando se apresentam. Tudo morno, tudo feito para agradar, se a sala muda de cor, mudam logo de lugar, ontem eram uma coisa, hoje são tendência, amanhã nem sabem quem são, chamam isso de experiência. Selfie bem enquadrada, mas a alma fora de foco, mil palavras na legenda e nenhum assunto no corpo, têm medo de parecer estranhos, então parecem todos iguais, confundem paz com apatia, confundem calma com tanto faz. Não precisas de gritar pra provar que estás vivo, mas se tudo te é indiferente, qual é mesmo o teu motivo? Sem sal, sem tempero, tudo igual no prato, olho no espelho e não reconheço o retrato, querem ser inesquecíveis sem se arriscar a incomodar, se o mundo já vem morno, eu não vou colaborar. Clones de comportamento, cópias de argumento, todos têm a mesma pose no mesmo movimento, a mesma frase, a mesma confiança, todos dizem “sou único” com a mesma semelhança. Não é sobre roupa nem sobre gosto musical, é sobre ter coluna quando a corrente vem no geral. É fácil ser alguém quando toda a gente aprova, difícil manter a essência quando a crítica te toca. Há quem troque convicção por aplauso imediato, faz negócio com a própria alma só pra receber um like barato, e depois pergunta “por que é que eu me sinto vazio?”, talvez porque deste a tua voz a quem nunca te ouviu. Não precisas ser o mais alto, nem o mais louco, nem uma máscara pra parecer alguém, só precisas de ter algo teu, uma ideia, uma cicatriz, uma dúvida, uma paixão, uma coisa que ninguém consiga copiar porque nasceu dentro de ti. Talvez o problema não seja falta de tempero, talvez seja tanta gente com medo de ser verdadeiro. Ensinaram-nos cedo que errar é humilhação, que é melhor ficar calado do que dar opinião, e nessa matemática de tentar não desiludir, passamos tanto tempo a agradar que esquecemos de existir. Não quero gente perfeita, quero gente presente, gente cheia de contradições, mas que seja consciente. Que tenha dias de pimenta e dias quase sem sabor, porque até o prato mais simples pode ser feito com amor. Não quero uma cópia bonita, quero aquilo que nasceu. Se o mundo já vem morno, eu não vou colaborar, mete fogo nesse verso e deixa a verdade queimar. Não tenhas medo de ter sabor, sê doce quando quiseres, sê ácido quando precisares, sê picante quando te provocarem, mas sê teu. Porque o mundo já tem gente demais a tentar parecer interessante, o que falta é coragem para ser interessante sem fingir.
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tá certo
Woke 🧠